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Barracões da Série A: questão de oração

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Um tema recorrente aqui no Tudo de Samba é a situação inacreditavelmente abjeta das instalações que as escolas dos grupos de acesso utilizam para construir a parte plástica dos seus desfiles. Profissionais altamente especializados, artistas plásticos, escultores, pintores, carpinteiros, ferreiros, iluminadores, costureiras, e uma série de colaboradores abnegados, todos submetidos à humilhação do exercício dos seus ofícios em condições insalubres, que ferem o bom senso, a segurança no trabalho e as normas de vigilância sanitária. Ratos, baratas, chuva, sol, uma mixagem de problemas, ignorados completamente na hora da atribuição da nota e, surreal, por grande parte da crítica, que não releva um detalhe sequer na hora de apontar o dedo para um carro mal acabado, um fantasia despencando, coisas do gênero.

Um pouco antes do carnaval 2015, o carnavalesco Jorge Caribé meteu o dedo nesta ferida exposta às piores bactérias e chegou a afirmar que os profissionais militam no inferno, com ausência de qualquer estrutura, sem sala, sem ventilação, sem piso adequado e sem banheiro. Além disso, à noite, ficam expostos a alto grau de insegurança, com invasão de usuários de drogas, de bandidos, redundando em grave risco material e humano.

– O barracão é uma merda. Eu amo esse prefeito Eduardo Paes, aprendi a gostar dele por causa do Nilo (Figueiredo, ex-presidente da Portela), voto nele, todo ano promete a cidade do samba com essas escolas faveladas e nada acontece. Ficamos aqui numa merda, num calor, numa sujeira, cada ratazana que parecem meus gatos e querem exigir espetáculo à altura do Grupo Especial, já que passa na Tv Globo. Mas eles prometem que vão fazer cidade do samba na Mangueira, não sei onde, e a gente vive neste inferno. Só olhar, parece bom mas não é. Tem terra, não tem um piso adequado, não temos sala, banheiro, não tem nada e mesmo assim pensamos que bom que não estamos no relento. Todas as dificuldades estão as mesmas ou piores mas eles querem carros lindos lá e eles comentam. Acho que quem comenta carnaval não conhece, não deve ir, não sei. E ficam dizendo que está ali um negócio rasgado, mofado. Só o vento e o sol acabam com tudo, até porque o material já é velho, a gente já pega de outras escolas. O material novo vende no mesmo lugar do especial e o preço é o mesmo, fazenda de trinta reais o metro e não temos grana para isso – disse, à época (Leia Aqui).

As condições são muito ruins nos barracões dos grupos de acesso
As condições são muito ruins nos barracões dos grupos de acesso

A preocupação toma conta também da organização dos desfiles da Série A. O presidente da Lierj, Déo Pessoa, foi muito claro ao cravar que não há nenhum projeto que traga um alento em relação aos barracões das instituições filiadas. Ao contrário, ainda teme por ações de despejo, na iminência de serem concretizadas, já que não há segurança jurídica alguma na posse (quase sempre juridicamente precária) dos galpões utilizados para guardar e transformar as alegorias. Como não há dinheiro para um investimento que beneficie todas as escolas, resta esperar pelo Poder Público.

– Não tem nenhum projeto em relação aos barracões. Não tem até porque há a iminência de um despejo batendo na porta das escolas. Nem tudo depende só da nossa força braçal, dos nossos músculos, depende também de recursos, estrutura, e isso nós não temos. Para ter espaço adequado, precisamos do Poder Público, já que estaremos inseridos no gabarito da cidade do Rio de Janeiro, de um logradouro urbano. Caso tivéssemos recursos, dinheiro para comprar um baita terreno e construir, beleza. Mas não temos – lamentou.

Questionado pela reportagem se alguma ação mais radical, como uma manifestação com alegorias espalhadas pela cidade, em pontos estratégicos, poderia sensibilizar a população, desconhecedora dos inúmeros problemas enfrentados, e aí sim estimular as Autoridades a uma tomada de decisão mais efetiva, Pessoa mostrou bastante serenidade e ponderou os efeitos colaterais de uma atitude agressiva e precipitada, desconsiderando qualquer hipótese de enfrentamento, com atos que pudessem prejudicar o direito de ir e vir do cidadão, apostando no bom senso dos envolvidos e na importância do samba na cultura e economia cariocas.

– Você se manifesta de outras formas. Numa forma radical, poderíamos estar tapando o sol com a peneira e dar um tiro no pé. Poderíamos chamar a atenção de todos para esta mazela, isso é uma mazela das escolas de samba da Série A, mas prejudicaríamos muitos cidadãos no seu direito de ir e vir, no Rio de Janeiro. A questão agora é orar. E sambar, festejar, mesmo na tristeza. Mas acredito que o Poder Público vai nos atender, a qualquer momento. É torcer que estas escolas consigam superar todas as dificuldades, os desafios, o que tem acontecido nos últimos anos, sob nossa administração. Em dois mil e dezesseis será assim também e quem sabe em dois mil e dezessete elas possam ter um espaço adequado para usufruir – concluiu.

Ouça a palavra do presidente Déo Pessoa, clicando abaixo.

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