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Misailidis, da Beija-Flor, em reflexões diversas

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Com dezoito anos ininterruptos de trabalho no carnaval, Marcelo Misailidis é um dos grandes nomes da história do quesito comissão de frente. Com excelentes passagens por Unidos da Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel, comanda sua turma há dois anos na Beija-Flor de Nilópolis, tendo participado decisivamente da conquista do título do último carnaval. Nascido no Uruguai, tornou-se um dos maiores expoentes do ballet brasileiro, primeiro bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde também foi Regente e Diretor do Corpo. Muitas credenciais dão a este personagem da cultura auriverde autoridade para debater diversos temas relativos à arte carnavalesca. Ao Tudo de Samba, falou sobre muitos assuntos, as inovações, a incerteza quanto ao futuro que permeia toda forma de arte e o que poderá acontecer quanto aos critérios de julgamento daqui para frente. Em relação ao trabalho vitorioso de 2015, relata suas impressões e deixa claro que não importa se foi ou não cem por cento do que esperava, já que cumpriu sua missão.

 – O processo de elaboração e desenvolvimento de um projeto é sempre uma corrida contra o tempo. Quando vai a cena ele esta concluído mas não significa que não houvesse possibilidade de ir além e conseguir se aprimorar mais técnica e artisticamente. Por outro lado, o espetáculo de Carnaval desenvolvido por uma comissão de frente ou pela Escola no geral, tem que estrear antes que envelheça em si mesmo, pois quanto mais o tempo passa, também podemos nos cansar do que idealizamos, tornando o espetáculo desgastado e enfadonho, e isso é muito comum acontecer. Quando finalmente vamos par avenida temos a sensação que precisamos de mais tempo, mas é chegada a hora de nascer para o público, mostrar sua cara, e neste momento ele esta mais preparado do que nunca. Assim como um guerreiro jovem é bom para a batalha, é sempre jovem demais pra morrer. Se era o que eu esperava, agora não importa mais. O que importa é que ele cumpriu sua missão –  explicou.

 Como qualquer arrojo e inovação num mundo repleto de tradição e conservadorismo, a experiência de integração da comissão de frente com o casal de mestre-sala e porta-bandeira (desfile de 2014) sofreu rejeição e pancada de tudo o que lado. Natural, vindo de uma crítica especializada com uma certa preguiça em entender qualquer iniciativa fora do que se pensa há décadas e que, acima de tudo, tem a equivocada certeza de que os desfiles são direcionados a ela, este grupo pequeno de especialistas (?), como se não houvesse o público, o amante da festa, o cidadão comum presente na avenida ou que gasta seu precioso tempo em frente ao televisor. Mas o fato é que, mesmo tendo sido implementada novamente pela Mocidade Independente em 2015, as notas ruins acabaram coincidindo nas duas execuções, o que poderia levar a um sepultamento do projeto empreendido.

– Não acho que nada esteja sepultado quando se fala de arte. E o Carnaval, muito além de uma festa ou manifestação popular, é também uma forte expressão artística em todos os aspectos: das manifestações de ruas aos espetáculos da Sapucaí. O Carnaval sempre transgrediu e nisso está seu maior fascínio. Respeitar as tradições não significa engessá-las, ao contrário, para sobreviver é preciso se reinventar, senão morre, se apaga e se acaba em si mesmo. Não há o que temer, isso é bom para todos os lados, para o público, para os artistas e para o espetáculo, que ganha ao se aprimorar, ao se sofisticar. Mas como tudo na vida, para isso ser possível é preciso evoluir como um todo – lamentou.

 Algumas questões pularam escandescentes  ao término de mais um julgamento. Por exemplo, um bate-boca público em relação a quem elaborava e desenvolvia algumas fantásticas comissões da Unidos da Tijuca. A discussão acalorada entre os coreógrafos Priscilla Mota e Rodrigo Negri e o carnavalesco Paulo Barros suscitou a dúvida sobre qual a importância de cada um para a realização de cada comissão de frente. Outro assunto derivado das últimas apresentações foi a utilização ou não de alegorias nas comissões. O próprio Misailidis não se valeu deste recurso neste ano. Sobre estes assuntos, sempre com muita ética, também opinou.

– Em linha geral, acho que cada relação de trabalho é determinada pelas partes interessadas e pelo contratante, que define as atribuições de cada profissional. Todo o resto é bom senso dos envolvidos, sejam coreógrafos, sejam carnavalescos. Quanto ao futuro do quesito, a utilização ou não das alegorias, posso dizer apenas que quem souber na arte, bem como nas Comissões de Frente, qual será a tendência no futuro, terá como certo o domínio do sucesso e acesso a todas as vitorias! Não há certeza de nada e para surpreender tem que se arriscar. Cada projeto é sempre um novo projeto um novo risco – elucidou.

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Marcelo também passeou por outros caminhos, como por exemplo a aparição de novos nomes em destaque na Série A e o destino desta nobre empreitada, enquanto quesito que vale muitos pontos no resultado final do desfile, seus critérios de julgamento e a linha a ser seguida. Acredita que os parâmetros são sempre muito abertos, facilitando a criação do artista mas atrapalhando a missão específica de conquistar a nota máxima, dificultando a comparação e aquilatação de cada obra. Postula uma maior capacitação do corpo julgador na direção de uma objetividade, busca de definições práticas que possam balizar a atribuição das notas. Entende que seria melhor arbitrar do que julgar, não exigindo tanto conhecimento científico específico. E finaliza tocando numa ferida aberta, exposta, dos atuais desfiles de escolas de samba, qual seja, a graduação das produções artísticas através de uma apresentação particular para um grupo de jurados e não em todo o percurso na avenida, para o público, revelador de uma disparidade conceitual e causador da quebra mortal do ritmo nos desfiles atuais.

 –  Sobre os novos nomes em destaque, desejo a eles sorte, sucesso e muita paixão pelo desafio à frente, pois para sobreviver neste ofício, tem que se estar preparado para tudo, especialmente  para suportar a pressão por resultados. Quanto ao caminho do quesito, depende sobretudo daqueles que definem as regras da competição e dos critérios a serem analisados. Os rumos são indefinidos porque os critérios são muito abertos, o que por um lado facilita o trabalho dos criadores, mas por outro lado complica a compreensão das comparações de julgamento. A diversidade é tão grande que por vezes é impossível comparar o que tem maior importância como realização. Acredito que pelo nível atual dos trabalhos apresentados, tem que haver o bom senso por parte da organização, a fim de capacitar seu corpo julgador em critérios práticos. Critérios nos quais sugiro arbitrar mais do que julgar, pois julgar envolve sentido crítico (conhecimento científico especifico) e consequentemente resultado meramente particular, ao passo que ao arbitrar se impõe a comprovação do erro ou fatalidade e inibe o fator unilateral. Também acredito que os mesmos trabalhos sejam analisados por todo seu desenvolvimento na avenida, e não por uma apresentação particular para o julgador. Isso esvazia o conteúdo da comissão de frente, valorizando somente o clímax cênico e paralisa em demasia o andamento do desfile – completou.

A Beija-Flor, campeã do carnaval 2015, conseguiu os trinta pontos no quesito comissão de frente, ganhando a disputa com duzentos e sessenta e nove vírgula nove pontos.

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