Em 2010, estive na festa de 07 anos da torcida guerreiros da águia, formada por torcedores apaixonados pela Portela, que aconteceu no clube River, em Pilares. O evento, claro, foi mais uma oportunidade para os membros da torcida declarar a incondicional paixão pela azul e branco de Madureira, mas outra situação chamava a atenção. Não era apenas a torcida aniversariante que estava presente. Tampouco eram apenas os portelenses que lotavam o local. Naquela quadra, em uma tarde quente e ensolarada, estavam reunidas torcidas organizadas de várias agremiações do Rio de Janeiro, todas elas ostentando bandeiras e faixas.
Ao final daquela experiência, tive a certeza de que havia presenciado, em dois aspectos pelo menos, algo novo no mundo do samba. Primeiramente, pude perceber que as novas torcidas de samba estavam mudando as forma de torcer pelas escolas de samba. Em segundo lugar, e, sem dúvida, mais importante, as torcidas estavam criando uma nova forma de solidariedade no mundo do samba. Sobre o primeiro aspecto, as torcidas organizadas de samba conseguem reunir pessoas que compartilham a paixão comum por uma escola de samba. Pessoas que, sem a torcida, estariam cultivando sua paixão de forma isolada, sem estar inserido em um grupo de amigos. Vistas desta forma, as torcidas organizadas de escola de samba permitem, para os apaixonados por esta manifestação cultural, o estabelecimento de novas formas de sociabilidade.
Nos ensaios técnicos ou mesmo nos desfiles oficiais, as torcidas organizadas das escolas de samba passaram a enfeitar as cinzas arquibancadas com suas faixas e bandeiras, tornando a festa mais bonita. Nestas bandeiras, além das cores e símbolos, são exibidas também referências importantes para a agremiação, sejam nomes fundamentais para o carnaval do presente ou baluartes do passado. O pioneirismo deste fenômeno coube a já citada guerreiros da águia, que, a partir de 2003, inspirou o surgimento de grupos de torcedores semelhantes em praticamente todas as escolas de samba. Entre as principais torcidas e suas respectivas escolas, destacamos: a independentes da Mocidade, da Mocidade Independente de Padre Miguel, a nação leopoldinense, da Imperatriz Leopoldinense, a nação verde e rosa e a raiz mangueirense, da Estação Primeira de Mangueira, a leões da Estácio, da Estácio de Sá, a nação Salgueirense, da Acadêmicos do Salgueiro, a família tijucana, da Unidos da Tijuca, e a panela de Noel, da Unidos de Vila Isabel. Além destas, dentro da própria Portela, surgiram outras torcidas, como a portelamor e a amigos da águia. Menção especial merece a “la pandilla clementiana”, que, formada por uma nova geração bem humorada e que idolatra as qualidades do futebol argentino, é a primeira “barra brava” do carnaval, levando para a Sapucaí seus “trapos” e bastante fôlego para gritar durante toda a apresentação da São Clemente.
A esta altura, meu amigo Anderson Baltar, insulano de quatro costados, deve estar reclamando, dizendo que a primeira torcida organizada de escola de samba foi a Unilha. De fato, em certo sentido ele tem razão. Lembro que, ainda nos anos 1980, várias reportagens destacaram o surgimento de uma torcida, nos moldes das famosas torcidas organizadas de futebol, em uma escola de samba. No alto das arquibancadas, as bandeiras tricolores se destacavam no meio do público, dando um colorido especial para os já alegres desfiles da escola insulana. No entanto, infelizmente, a iniciativa dos torcedores da União da Ilha não incentivou o surgimento de grupos semelhantes nas demais escolas. A própria Unilha, poucos anos depois, desapareceu, sobrevivendo apenas na memória de alguns “torcedores sambistas” mais antigos. A torcida guerreiros da águia pode não ter sido a primeira torcida organizada de escola de samba a ser fundada, mas, sem dúvida, foi inquestionavelmente a pioneira neste fenômeno recente que é o surgimento de torcidas em várias agremiações carnavalescas. Foi ela quem, ao servir de parâmetro e inspirar a formação de torcidas organizadas nas demais agremiações cariocas, motivou o surgimento de uma nova forma de torcer pelas escolas de samba.
Diante desta realidade cada vez mais presente nas arquibancadas do sambódromo e nas quadras de ensaios, uma pergunta parece inevitável: seriam as novas torcidas de samba uma nova versão das temíveis torcidas organizadas de futebol? As semelhanças são evidentes, mas, para muitos, o mais importante é saber se, com a presença destas torcidas nas arquibancadas, teremos o risco de presenciar também no samba brigas, conflitos ou simplesmente o acirramento das rivalidades, tal como ocorre no esporte mais popular do país? Estas dúvidas se justificam porque, apesar das rivalidades, que são comuns em situações de competição, o mundo do samba é reconhecido pela convivência pacífica e amistosa entre os sambistas. Os encontros que estreitam laços sociais, criando uma extensa rede de solidariedade que ultrapassam as fronteiras das comunidades e não estão limitadas pelas cores das bandeiras, é um legado que nos remete aos primeiros sambistas. Apesar dos conflitos que caracterizavam o período de surgimento das escolas de samba, compondo, por exemplo, o folclore que cerca o surgimento da figura do mestre-sala, os núcleos de sambistas sempre mantiveram estreita relação.
É o que demonstra os vários cronistas carnavalescos que escreveram sobre o período, como Sérgio Cabral. Tendo como fonte o antigo jornal Diário Carioca, Cabral mostra que no carnaval de 1931, ou seja, um ano antes do primeiro concurso de escola de samba na praça XI, os sambistas da Mangueira cumpriram uma extensa agenda de visitas a outros redutos de samba, incluindo Oswaldo Cruz e morro do São Carlos. Assim, naquilo que em outra oportunidade chamamos de “dádiva do samba”, os laços de solidariedade cultivados entre os primeiros sambistas permitiram, além de difundir o samba pela cidade, uma relação de reciprocidade fundamental para que as escolas de samba se consolidassem como grande manifestação cultural, ao contrário de outras expressões populares que ao longo dos anos desaparecem.
Atualmente, estes laços de solidariedade são mantidos não apenas pelas visitas às quadras de ensaio, mas pelo calendário de festas que reúne os segmentos de várias agremiações. Nas festas e eventos do mundo samba, passistas, casais, diretores de harmonia, velhas guardas, baianas e outros segmentos fundamentais para o carnaval carioca compartilham experiências e reforçam antigas amizades.
As novas torcidas de samba, apesar das faixas e bandeiras que lembram as temidas torcidas de futebol, estão inseridas nesta reciprocidade comum ao mundo do samba. Na festa relatada no início deste texto, torcidas de várias escolas se reúnem no clube River para a comemoração dos sete anos de aniversário da guerreiros da águia. O mesmo ocorrerá nas comemorações pelo aniversário das demais, que será uma oportunidade para a visita ser retribuída, ou nas festas especialmente criadas para promover o encontro entre os torcedores de samba. Assim, as torcidas de samba, ao invés de incentivarem o conflito e acirrarem perigosamente a rivalidade, estão, na verdade, cultivando a reciprocidade e criando novos laços de solidariedade no mundo do samba.
Em suma, quando uma escola de samba entra hoje na avenida, sabe que vai encontrar nas arquibancadas a paixão e a devoção de seus admiradores. As torcidas organizadas que invadiram o carnaval, fenômeno relativamente recente, estão criando novos espaços para a sociabilidade no carnaval, ao mesmo em tempo que estendem os laços de solidariedade, há décadas comum entre os sambistas, para muitos torcedores que ainda estão engendrando as regras tácitas de convivência no mundo do samba. Por trás das bandeiras e faixas que colorem as arquibancadas, talvez esteja a mais expressiva novidade que os sambistas presenciaram nos últimos anos: as novas relações sociais que são estabelecidas pelas torcidas de samba.





















