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Confiança no desfile e desabafo sobre barracões: ‘A gente vive neste inferno’

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Responsável por muitos carnavais improváveis, bem realizados sem qualquer estrutura ou condição financeira, Jorge Caribé, carnavalesco da Renascer de Jacarepaguá, recebeu o Tudo de Samba e abriu o coração, apresentando habitual motivação, respeitando as concorrentes, todas, e lançando holofotes sobre um problema crônico, cada vez mais grave e que é absolutamente ignorado pela cada vez mais teórica e distante crítica, pelos simpósios estéreis de carnaval e pelas autoridades constituídas, a falta absoluta e completa de mínima estrutura e salubridade para a construção do sonho, da parte plástica do carnaval dos grupos de acesso. Antes disso, porém, o artista analisou o equilíbrio entre as escolas da Série A e demonstrou toda a felicidade do mundo com a chegada de sua amiga Kátia Paz (foto) à presidência da escola.

katiamepé– Não vou subestimar ninguém. Tem quinze escolas de samba terríveis, que querem subir e não querem cair, porque é um falecimento cair para Intendente Magalhães. Acho que não tem a preferida e nem a preferida a descer. Acredito que ninguém passará rampeiro, porque todos têm seus padrinhos, todos têm suas histórias. A gente não está nem com medo de ninguém, nem subestimando tampouco. Vamos pro pau com todo mundo, e vamos saber na hora quem vai rebolar melhor. Quanto à Kátia, somos amigos antes de ela chegar na Portela. Eu era carnavalesco do Arranco e ela era dona de uma empresa de chaveiros e bonés e canetas. Ela é como eu falo de alguns presidentes, que não são administrativos, são sambistas. Gente que chega na escola e sabe o que fazer, sabe como comprar um pano. Na Portela foi meu anjo da guarda, pessoa com quem mais me identifiquei, ficamos muito amigos. Várias pessoas me perguntaram a razão pela qual ela não me chamou para a Curicica, onde foi presidente. É que ela havia me indicado dois meses antes para a União de Jacarepaguá. Agora nesta vinda dela para cá, foi mais fácil. Além de eu saber o meu limite, ela é a patroa e eu o funcionário, a gente tem a liberdade de eu falar com ela, no carro, só nós dois. A gente fala e não tem mágoa, somos amigos, independente de escolas de samba – apontou.

Debruçando sobre uma chaga do carnaval carioca, Caribé mostra completa indignação com o abandono a que são submetidas as escolas que não possuem morada na Cidade do Samba. Mesmo eleitor e fã do prefeito Eduardo Paes, cobra dele a promessa da construção de área própria e minimamente adequada para as integrantes dos grupos de baixo e, com conhecimento de causa, prova como nasce a arte do impossível, do inviável, do inóspito terreno cedido ou invadido pela maioria das escolas de samba. Exposto ao vento, ao sol, à chuva, o trabalho é cobrado sem trégua e sem descontos. O resultado final tem que ser ótimo, não se levando em consideração a precariedade absoluta com que é desenvolvido.

– O barracão é uma merda. Eu amo esse prefeito Eduardo Paes, aprendi a gostar dele por causa do Nilo (Figueiredo, ex-presidente da Portela), voto nele, todo ano promete a cidade do samba com essas escolas faveladas e nada acontece. Ficamos aqui numa merda, num calor, numa sujeira, cada ratazana que parecem meus gatos e querem exigir espetáculo à altura do Grupo Especial, já que passa na Tv Globo. Mas eles prometem que vão fazer cidade do samba na Mangueira, não sei onde, e a gente vive neste inferno. Só olhar, parece bom mas não é. Tem terra, não tem um piso adequado, não temos sala, banheiro, não tem nada e mesmo assim pensamos que bom que não estamos no relento. Todas as dificuldades estão as mesmas ou piores mas eles querem carros lindos lá e eles comentam. Acho que quem comenta carnaval não conhece, não deve ir, não sei. E ficam dizendo que está ali um negócio rasgado, mofado. Só o vento e o sol acabam com tudo, até porque o material já é velho, a gente já pega de outras escolas. O material novo vende no mesmo lugar do especial e o preço é o mesmo, fazenda de trinta reais o metro e não temos grana para isso – lamentou.

Como sempre acontece com os desfavorecidos em qualquer área da vida brasileira, o ser humano apresenta capacidade infindável de se reinventar e exercer a solidariedade com o irmão. E é isso que acontece entre as bandeiras mais pobres. Esculturas, panos, materiais são divididos de acordo com a necessidade de um e a falta de utilidade em outro tema. As quinze escolas se ajudam, trazendo um caráter humano decisivo para a festa e a continuidade do espetáculo, em si. Não há cronograma, existe o dia de hoje, o que se tem, o que se dá para pegar e fazer. Não é o ideal, não é mesmo bom, mas no final o público, que pagou e nada tem a ver com isso tudo, merece o bom desfile, o que quase sempre acontece.

– Não temos cronograma no acesso. Vamos matando quinhentos e dois leões por dia. Aqui está na fase de tira um queijo de um carro e bota no outro, ver o que sobra do Império e passa pra nós, o que não nos serve passa-se a outra amiga, pegamos uma madeira daqui e passamos a outro lugar. Este é nosso cronograma. Mas na avenida só vale quando a sirene toca. E estaremos prontos. Se estava atrasado, se a madeira é nova, se é velha e o que está por cima é o que vai valer, a gente vai chegar lá e vai tirar o sono de muita gente. Pobre se junta na miséria, no desespero. O Império da Tijuca, o presidente Tê nos ajudou e está todo mundo no mesmo grupo. Não sei se ele está pensando que está acima e estamos abaixo. De repente, chega na hora ele ainda vai ficar puto porque ajudou e chegamos na frente dele. No desespero, todas as quinze se ajudam. É legal ganhar lá na hora, porradão na cara do outro, mas antes todo mundo tem que chegar legal. Todo mundo é parceiro. O Império, o Império da Tijuca, todo mundo. Tem um boneco aqui que já emprestamos para outra escola, quero um unicórnio e ele só tem um cavalo, a gente pega e bota um chifre. É assim e sempre vai dar certo – vibrou.

Este toque de amor, de fraternidade, de humanidade, incógnitos, mesmo invisível aos insensíveis, aos apontadores de dedo profissionais (supostos aliados, falsos apaixonados que anseiam apenas por uma boca livre, um convite a um camarote numa quadra, um selfie), alimenta o carnaval do Rio de Janeiro, movimentando a máquina, a roda e garantindo anos e anos de sobrevivência, apesar dos pesares.

Ouça a declaração de Jorge Caribé, clicando no player abaixo.

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