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 FÁBIO PAVÃO
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Em - 11/06/2010 00:20
A última baiana

Quase todos achavam que a tradição havia acabado. A maioria dos jovens desconhecia as longas saias rodadas e os panos de costas, não entendendo muito bem o porquê de tanta reverência. Ela era negra, pouco acima do peso, aparentava ter uns cinqüenta anos de idade. Seus cabelos mal cuidados estavam escondidos em baixo do chapéu, que servia de moldura para o seu rosto sereno, cujo destaque eram os olhos fixos e determinados, típicos de quem está consciente do que precisa ser feito. Caminhava pelas margens do mangue segurando a pesada saia, em direção à armação dos correios. Era seguida pelo povo, e foi um dos populares quem ordenou para o segurança do primeiro portão: "sai da frente, ela é baiana!"
Acostumado a atitudes truculentas, a única reação do segurança foi sair da frente e deixar o portão aberto para ela. Nem foi preciso barrar os populares. Eles apenas se debruçaram nas grades de ferro e, enquanto a senhora seguia olhando sempre para frente, gritaram desordenadamente em forma de incentivo: "vai, baiana!". A escola que desfilaria já estava armada, pronta para iniciar sua apresentação. Como na versão bíblica de Moisés diante do mar vermelho, as alas, já arrumadas e posicionada, se abriram para ela passar. Os empurradores se apressaram em tirar as alegorias do caminho. Ela seguia decidida, pelo corredor de olhares dos componentes, até o portão do setor 01.

Quando ela se aproximava, o segurança, por um hábito quase instintivo, olhou na direção de seu peito procurando uma credencial. Não encontrou, mas, mesmo assim, não esboçou qualquer reação. Apenas observou ela dar uma breve parada, puxar a parte da saia que estava caindo, e fazer a curva para entrar na área do Setor 01. A arquibancada no início não entendeu muito bem o que estava acontecendo. As rádios começaram a noticiar para o mundo inteiro: "tem uma baiana no sambódromo!" Os repórteres correram em sua direção, perguntaram quem era ela, o que ela pretendia. Ela simplesmente não respondia. Caminhava da mesma forma, passando por cima dos fios e se esquivando dos microfones. Ela tinha um objetivo e agora estava bem diante dele. Parou em frente ao portão de início de desfile, na entrada do setor 03.

O bicheiro, desesperado, desceu correndo do camarote. Ele também estava atônito. Havia pensado em dizer tantas coisas, mas, diante da força moral que emanava daquela mulher, sua voz embargada conseguiu dizer apenas duas palavras: "pode abrir!" E então ela passou pelo portão. Estava na área de desfile, diante do setor 03. Largou finalmente a pesada barra da saia, revelando toda a beleza de sua roupa. Caminhava agora movimentando os braços, gingando o corpo sob a pesada fantasia. O público das frisas fica em pé, aplaude. As arquibancadas começam a gritar. De repente, diante dos olhares extasiados, ela começa a rodar. Girava, girava pela pista como se mais nada existisse ou tivesse importância. Girava com a convicção dos grandes mestres, com a certeza que representava a herança viva dos eternos sambistas. Girou por vários minutos até, finalmente, com largo sorriso no rosto, parar e abrir os braços para o público. A arquibancada emocionada vibra. Nas frisas, enquanto a mãe chora e aplaude freneticamente, uma inocente criança apenas diz: "só isso? Já acabou a coreografia dela?" Com a mesma perseverança que havia demonstrado até aquele momento, ela seguiu em frente rumo à Praça da Apoteose, repetindo o gesto em cada um dos setores. Até desaparecer na dispersão.

Nos anos seguintes, muitos acreditavam que ela voltaria, mas o tempo passou e o feito jamais se repetiu. Ninguém nunca soube exatamente o seu paradeiro, nem o porquê dela não ter retornado à avenida. Alguns diziam que ela havia virada evangélica. Outros, que ela apenas não agüentou mais as pesadas roupas preparadas pelos carnavalescos. Muitos acreditavam que outra senhora pudesse repetir tal ousadia, entrar na avenida e encantar a todos rodando. No entanto, a verdade é que nunca mais uma baiana foi vista na Marquês de Sapucaí. Com o tempo, ela se tornou apenas uma remota lembrança na mente de poucos. Depois, era só uma história contada pelos pais ou avós. Alguns até desconfiavam que aquilo não teria acontecido. Virou lenda. Virou saudade. Virou texto de alerta sobre o que as escolas de samba estão fazendo, atualmente, com esta ala tão importante para o carnaval. Um alerta para que jamais tenhamos a tristeza de ver desfilando, sob os holofotes do sambódromo, a última baiana.

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