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(Não) apenas uma Porta-Bandeira diferente

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Sempre um dos destaques do carnaval carioca, a Porta-Bandeira Marcella Alves passou este ano por uma experiência rara em sua carreira. Dos quatro jurados do desfile do Grupo Especial, em seu quesito, recebeu (em par com o Mestre-Sala Sidclei) apenas uma nota dez. Para se ter uma ideia, a dupla havia sido em 2014 uma das três a receberem as quatro notas máximas. Em 2011, com Raphael, foi a única a fazer quarenta pontos, pela Mangueira, e em 2013 alcançou todos os graus maiores também. Atua no ofício desde os nove anos de idade e aos catorze tornou-se a mais nova Porta-Bandeira a desfilar no Grupo Especial, pela Caprichosos de Pilares. Com todas estas credenciais, Marcella abriu o coração ao Tudo de Samba, externando seu respeito ao julgamento oficial, falando sobre as justificativas das notas que lhe foram atribuídas e especialmente apontando o dedo para uma tendência que vem limitando a dança solta e tradicional do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, o excesso de coreografias tacitamente exigidas pelos jurados.

– De maneira eminentemente técnica, não cometemos erros neste desfile. Tudo foi ensaiado e feito da melhor forma para atingirmos o êxtase da performance coreográfica. A arte é infinda e não conseguimos chegar no seu topo. Nossa dança é arte e a busca pela perfeição nunca acaba. O julgamento tem muitos elementos subjetivos e ainda bem que é assim. Quando cometemos erro técnico, ficamos apreensivos e torcendo para os jurados não observarem. Mas não aconteceu isso, saímos tranquilos, esperando as notas dez. Entretanto, respeitamos muito os jurados, o conhecimento deles. As pessoas nunca pensam que o juri pode não ter curtido. E eles são tecnicamente capazes, aptos a analisar. Fiquei triste mas entendo que é do jogo, agradamos ou desagradamos – ponderou.

Saia curta? Foto: Marcos André Victorio
Saia curta?
Foto: Marcos André Victorio

Após o resultado, foi comum encontrar alguém que, engenheiro de obra pronta, apontasse a roupa da Marcella como vilã e responsável pela perda de décimos. Segundo alguns, a saia estaria curta, aparecendo as pernas (e isso é ruim?), podendo ter sido mal interpretado por alguns julgadores. Apenas a jurada do Módulo 1, Monica Barbosa, citou a saia e mesmo assim como uma parte responsável pela retirada de pontuação.

– A roupa não era curta. Linda, uma das mais modernas deste carnaval. Geralmente as anáguas possuem três aros e a minha tinha apenas dois. Só que no fim dele, substituindo o terceiro, entravam as penas de faisão, destruindo completamente esta tese. Ademais, o regulamento não fala nisso e eventual opinião pessoal não pode servir de parâmetro de julgamento, o que o tornaria ainda mais subjetivo. O que pode ser dito é que o conteúdo artístico da apresentação pode ter sido prejudicado pela roupa. Mas o que aconteceu foi que me ajudou bastante. Era funcional, bem desenhada e se, lá atrás, achasse que poderia atrapalhar, teria falado com o Renato Lage, que é super aberto. Entretanto, li o que disse a jurada do Módulo 1 e fazia sentido, foi uma argumentação bem fundamentada – observou.

Reconhecendo que tinham mesmo uma proposta mais teatral, amplamente baseada nos resultados de anos anteriores, se sente um pouco aliviada com o que leu sobre as notas, já que teria mais dor de cabeça caso os sentenciadores tivessem feito observações sobre a parte técnica do casal e a execução coreográfica.

– Justificativas plenamente aceitáveis. Possuíamos esta proposta de mais teatralização e isso não foi comprado por eles. Nada de chorar o leite derramado. Agora é trabalhar em cima disso e ponto. Não tem razão para revolta ou reclamação. Choro de perdedor não é minha praia, nunca foi.

Torcendo por uma dança mais livre, Marcella, uma jovem de trinta e um aninhos, mostra maturidade suficiente para postular uma maior leveza, um bailado mais solto, mais no sentido de ir ao encontro da origem da dança de Mestre-sala e Porta-Bandeira. Indo na linha do que alguns tem batido (Phelipe Lemos falou ao Tudo de Samba exatamente a mesma coisa, aqui), torce para uma menor exigência coreográfica, através de uma avaliação que considere a primazia do gingado, do bailado, da magia.

– Antes de tudo, amo dançar como Porta-Bandeira. Sou nova mas tenho uma estrada e por mim dançaria livre, leve e solta. A dança é isso, o olho no olho, coração, emoção. A imposição velada dos jurados (modificada agora) a uma demanda coreográfica foi o tom de alguns anos. E tem horas que a coreografia em geral força a uma espécie de mímica da letra do samba. Sorte nossa que temos a estupenda Elizabeth Bejani. Sou a favor de cortejo, giro e sapateado. Se não quisesse assim poderia ser bailarina do Teatro Municipal – finalizou.

Contrato renovado até mesmo antes do desfile de 2015, Marcella e Sidclei defenderão a bandeira salgueirense no próximo carnaval.

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